Grupo de estudos em Audiodança na Cia. Etc. [Foto: Renata Vieira]

Grupo de estudos em Audiodança na Cia. Etc. [Foto: Renata Vieira]

Por Elis Costa

Vamos lá, tentar organizar a doce bagunça que reina na minha cabeça nesse princípio de pesquisa sobre audiodança.

Logo no comecinho dos nossos estudos, como era necessário, dedicávamos um bom tempo a revisão bibliográfica. O que danado que a gente ia ler, uma vez que não existe absolutamente nada publicado a respeito de audiodança? Que leitura seria indispensável, uma vez que nem a audiodança existe ainda, que é a gente que tá inventando? Caio e Marcelo, ambos com formação em música, tinham mais clareza nas suas escolhas. Mas e eu? Em que eu poderia contribuir nesse momento? Foi quando me lembrei de Ana Clara Oliveira.

Ana eu conheci em 2012 lá em São Paulo, durante o segundo encontro do ANDA. Estávamos ambas apresentando trabalho no mesmo grupo temático: eu, falando da minha experiência com dança no setor de traumato-ortopedia pré e pós-operatório do Hospital das Clínicas da UFPE, quando ainda era aluna do curso de Artes Cênicas; e ela nos contando da sua interessantíssima pesquisa de mestrado, realizada no PPGDANÇA da UFBA, sobre uma possível construção de uma poética em audiodescrição de dança. Na altura, porque o interesse na acessibilidade cultural era comum a nós duas, trocamos contatos. Que bom que fizemos isso! Dois anos depois, estava eu no facebook, importunando a moça com perguntas sobre sua dissertação que, felizmente, está disponível online. E ela acabou sendo nosso ponto de partida.

Quando eu e Marcelo realizamos o nosso primeiro experimento de audiodança no episódio 3 da Rádio Etc., lá em outubro de 2012 (mesmo ano em que conheci Ana), muitos comentários bacanas foram feitos. Se não me engano esse foi o episódio mais “comentado e curtido” dentre os produzidos até hoje, pra utilizar os mais atuais termos de valoração e legitimidade do nosso tempo. Outra questão que se destacava é que, vez ou outra, aparecia alguma referência a audiodescrição nesses comentário. Um dos mais empolgados foi o da própria Ana Clara, pra minha felicidade.

A discussão sobre audiodança (conceitos, formas, princípios, etc.) dentro da companhia antecede a minha chegada (também em 2012! Ô ano!), mas saiu do campo da potência somente com esse experimento, e está sendo aprofundada agora, com nossa pesquisa aprovada pelo FUNCULTURA. E por toda a trajetória desenhada até agora senti que precisava me aproximar mais da audiodescrição. Não sou audiodescritora e, até então, não ambiciono ser, mas senti que precisava conhecer mais cuidadosamente esse lugar que tantos fizeram referência direta quando experienciaram nosso protótipo de audiodança. Para saber do que se trata e encontrar não só as interseções entre elas, mas principalmente os pontos em que elas (audiodescrição e audiodança) divergem. Para minha alegria, Marcelo sentiu tudo isso junto comigo. E a companhia comprou a ideia, mergulhando junta nas palavras de Ana Clara – resgatada, pelos meus afetos, da minha memória.

Aqui, coloco de forma bem simples o que observamos na leitura e discussão da sua dissertação. Mais como registro do encontro em que nos dedicamos a isso (ocorrido na manhã do dia 24 de março de 2014, na minha casa) do que como uma conclusão fechada e fixa do que foi refletido. E acho importe dizer: essas observações refletem a minha opinião, nesse exato momento da pesquisa em que nos encontramos. Não necessariamente reflete o ponto de vista dos demais componentes da companhia, tão pouco é imutável. Estou em processo. Um instigante processo. E no meio desse mar revolto, sujeita a todo tipo de intempérie, eu navego e danço.

Vamos a isso, então. Ana, no seu texto, destaca alguns importantes pontos que caracterizam a audiodescrição de dança que eu não reconheço na minha ideia de audiodança, como por exemplo a obrigatória presença da palavra; a necessária relação com uma obra de dança cênica existente e seus demais elementos sonoros (se houver), uma vez que mesmo existindo em outro contexto e sendo elaborada previamente como roteiro, o ato da audiodescrição não faz sentido sem o acontecimento da dança; a categorização da audiodescrição como uma modalidade de tradução audiovisual intersemiótica (o fato de ser uma tradução reforça a necessidade da existência de algo prévio, a ser traduzido); e um sentido de existir que passa necessariamente pela ideia de tornar a dança acessível ao público de não-videntes.

Nas nossas discussões no grupo de estudos, já conseguimos entender que a audiodança se aproxima demais da música concreta e do conceito de paisagem sonora, tanto quanto da literatura (o entendimento dessa aproximação com literatura foi despertada em mim através da leitura da dissertação de Ana Clara Oliveira). No entanto, ela não depende necessariamente de nenhuma dessas partes para existir. A audiodança é um lugar de fronteira (eu prefiro esse termo ao modismo do “entre-lugar”, que mais me soa como “lugar nenhum”). E como tal, é território de tensões. Não precisa, inclusive, que a dança em si a preceda, exista no seu contexto de criação. Não precisa fazer nenhuma referência a outra obra cênica para ser legítima. Não é uma tradução ou veículo de acesso. Tão pouco depende do campo do possível. A audiodança está tanto para a ideia da dança, como para seu vestígio, seu registro sonoro poético, como pro campo do impossível ao corpo. Ela é a própria obra, autônoma, independente e acessível a experiência estética dos não-videntes pela sua própria natureza: audível (só existe num meio acústico), imagética (porque a imagem não é algo que está somente no olhar), tátil (porque sinto a vibração do seu movimento) e imersa em dancidade (na forma ou no conteúdo).

No entanto, elas – audiodescrição e audiodança – não são opostas. Há também os pontos de interseções entre as mesmas, aqueles que as aproxima. Mas opto aqui por falar do meu pensamento sobre audiodança reforçando aquilo que eu acredito que a audiodança não é. Entender o objeto através do seu inverso. Ensinar a pescar é muito mais interessante, nesse meu momento e nas minhas atuais circunstâncias, que dar o peixe. Até porque sou artista. É a obra que me interessa, esse é meu lugar, mesmo quando estou pesquisadora. Conceitos, definições, certezas, essas coisinhas caretas e quadradas (às vezes tão necessárias), a gente inventa depois. Se der.

Complexo, né?
Adoro.